sábado, 18 de outubro de 2008

Vida e morte da imagem



"Um dia vai ser preciso abrir a porta da sombra
avançar até os primeiros degrau, procurar
uma luz para se reconhecer no meio de
trevas de tal modo antigas que a carne humilhada
acabou por se habituar a elas".


Michel Serres




História.
Memória.
Sensibilidade.
Desconstrução.
Ângulos.
O enquadramento do olhar e o instrumento mediador.
Partículas da realidade a se fixarem em imagem.
Vida e morte entrelaçadas.
Da evanescencia à eternidade, os contrários se instauram, num ágil e meticuloso jogo de captura.
Das palavras-chaves, ligeiramente estendidas em curtas sentenças, à epígrafe de Michel Serres, eleita por Regis Debray para a abertura do primeiro capítulo de sua obra Vida e morte da imagem – uma história do olhar no ocidente, busquei extrair algumas notas, a meu ver essenciais, embora criteriosamente selecionadas por meu oportunismo subjetivo, da conferência Fotojornalismo na atualidade, ministradas na manhã da última terça-feira (15/10/2008), pelo fotógrafo do jornal Zero Hora, Jefferson Botega, e pela professora do curso de Comunicação do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Laura Elise de Oliveira Fabrício. Aqui estou a omitir a seqüência factual da fala dos conferencistas. Nem tampouco, transcreverei literalmente qualquer fragmento de seus dizeres: não os gravei, nem os registrei por escrito. Até porque, se me valesse de quaisquer desses recursos estaria a traí-los. E as palavras, ao contrário das imagens, são sempre os mais sutis, na sua ferocidade subjacente, código de traição. Utilizei, a partir do que assisti e ouvi, um processo semelhante ao que se faz com as flores - e emprego sem isenção de culpa uma falaciosíssima analogia – após colhê-las com o propósito de extrair sua fragrância: deixei-as em decantação. E o perfume do fotojornalismo, com acordes de sua história, evolução e projeções futuras – trescala os decisivos odores contidos na antítese vida e morte.
Há na fotografia uma potencia viva e irresistível, pois com a fotografia não nos é mais permitido conceber a imagem ausente do ato que a faz ser. Uma fotografia não é apenas o produto de uma imagem, resultado de uma técnica e de uma capacidade de saber fazer e, como diria Dubois “uma representação de papel que se olha simplesmente em sua clausura de objeto infinito”.
De mero dispositivo mecânico, por vezes distraidamente acionado, à intuição e sensibilidade artística, o que é a fotografia? O espelho, transformação e traço da realidade ou um símbolo? Testemunho, documento ou alegoria? Inventário iconográfico da existência? Sem o desejo de encontrar uma saída pragmática para o labirinto de tantas outras indagações latentes, Barthes oferece-nos a ponta do fio de Ariadne, ao afirmar que o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma única vez ao repetir, mecanicamente, o que nunca mais vai existir existencialmente. E o filósofo prossegue: “Nela o acontecimento jamais se ultrapassa rumo a outra coisa: ela sempre remete ao corpus de que precisa o corpo que estou vendo; ela é o Particular absoluto, a Contingência soberana (...), a Oportunidade, o Encontro, o Real em sua expressão infatigável”.
As imagens, e por conseqüência a fotografia, de forma contrária à palavra, são perceptivelmente acessíveis a todos, em todas as línguas, independente de competências e aprendizados prévios. E o fotojornalismo, na era digital, integra todos os andares da Torre de Babel: do Vaticano à Meca; de New York a Pequim; do pampa rio-grandense a Dubai. Contudo, uma vez que o olhar se desvia da imagem imprensa em papel – ou da tela do computador – resta ter acesso aos olhares interiores que estão prescritos em cada projeção visível, somente possível por meio da linguagem e da tradução simbólica.
A partir do momento em que a imagem fotográfica pretende ultrapassar o seu referente, eternizá-lo, congelá-lo na representação e, consecutivamente substituir, tal como um traço detido, sua ausência inelutável, a imagem é destituída daquilo que configurava a sua pureza indicial. Perde, assim, a sua conexão temporal. O fragmento oriundo da capturação mecânica torna-se parcialmente autônomo e, ao abri-se para a iconização, anuncia a sua morte. A fixação iconizante assinala o princípio do trabalho de morte da representação ao “mumificar” a imagem.
Jeferson Bottega e Laura Fabrício nos apresentaram, sob múltiplos enfoques, a gênese do processo imagístico de vida e morte. Não somente da fotografia jornalística como produto final e acabado, mas dos instrumentos de captura de imagens, de suas funções no decorrer da história, indissociável aos fatos que conjeturam as mais diversas experiências humanas. E das novas tendências mercadológicas no mundo da comunicação, a anunciarem desconstruções e reconstruções, seguindo a sempre válida premissa de que somente as ruínas são eternas.
Por Tatiana Prevedello

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